Ysolda Cabral em Prosa e Versos

Uma pessoa que chora e ri de alegria, tristeza ou saudade, sem nenhum pudor...

Textos


"ENCARNADA POR FREI DAMIÃO"
  De: Ysolda Cabral  




Ela é bonita, alegre, barulhenta, inteligente, espirituosa e exageradamente minuciosa em suas narrativas, cujo tema sempre versa sobre ela. Ontem nos contou que, no último sábado foi ao casamento de uma amiga. E, como ela e o marido seriam uma das testemunhas resolveu caprichar no visual.

Devo observar que, há um tempo, esteve no seu endocrinologista – aquele das fórmulas milagrosas que fazem emagrecer como num passe de mágica - e seu manequim chegou rapidamente a 42. Entretanto, ao se preparar para o casamento, acima mencionado, constatou que dos 42 já estava perto dos 48, considerando o período menstrual, o qual sempre a deixa um pouco mais redondinha por conta de inchaço. Claro!

Com um apertinho, aqui e acolá, estaria resolvida a questão. Mais que depressa recorreu ao “chupa cabra” de sua mãe (espécie de macaquito que começa nas pernas e termina um pouco abaixo do peito, preso com silicone de altíssima potência, e, segundo ela, capaz de fraturar facilmente as costelas ). Por cima, uma poderosíssima calça-cinta que serviria, inclusive, para manter o absorvente no devido lugar. De sutiã resolveu usar um de bojo para dar mais volume e “altivez”, preso ao pescoço, e, finalmente, estava pronta para ser “envolvida” pelo vestido diáfano, azul turquesa de manequim 42.

Em cima de altíssimos saltos, devidamente maquiada, penteada e perfumada saiu do quarto deslumbrando o marido e o filho que impacientes lhe aguardavam.

Fazia tempo que não se sentia tão bela, elegante, sexy, poderosíssima... O marido “babava” literalmente.

A cerimônia ainda estava pela metade, quando começou a sentir os pés doendo, o pescoço pesando, queimando e, naturalmente, o peito arriando. O silicone do “chupa cabra” se enroscando nas dobrinhas das costas, levando consigo parte do sutiã e da calça-cinta. E o suplicio apenas estava começando.

Finalmente a cerimônia acabou e todos se dirigiram para o salão de recepção. A esta alturas ela se sentia “encarnada” pelo próprio Frei Damião de tanto que sua postura lembrava a dele. Neste momento, em total desespero, implorou ao estupefato marido que a levasse embora imediatamente, jurando nunca mais deixar de comer docinhos e bolo de noiva de casamento algum.

Ysolda Cabral
Enviado por Ysolda Cabral em 23/03/2010
Alterado em 11/05/2013
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